22/09/2021

Folhas de Notícias LInQUE

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O luto (Setembro de 2022)
A força do Perdão (Junho de 2022)
(Re)Pensar a esperança (Março de 2022)
Falar de Gratidão em tempos de correria (Dezembro de 2021)
Comunidades Compassivas (Setembro de 2021)
Dar voz a quem cuida (Junho de 2021)
Damos-lhe as boas-vindas (Março de 2021)


O Luto

No sábado dia 11 de setembro retomámos o grupo de apoio ao luto da LInQUE. Pela sexta vez aceitamos o desafio de abrir e facilitar a dinâmica do grupo, com o olhar curioso e atento a cada história, cada perda, cada emoção partilhada e com a esperança de chegarmos juntos mais longe, mais ao fundo de cada um.

Somos movidas pela compaixão, pela certeza de que cada ser humano que vivencia a dor da morte de alguém significativo, se pode sentir ferido, inseguro, zangado, triste, anestesiado, assustado, perdido, traído, desiludido, vulnerável, culpado, irritado… (e uma lista infindável de emoções), pode sentir tudo e que ainda assim, pode renascer desta experiência de perda como uma pessoa que ama e que é capaz de amar.

Lemos os livros e artigos, aprofundamos, estudamos, fazemos cursos, atualizamos conhecimentos, somamos experiência clínica, mas ainda assim, é no seio destes grupos, seis já, que surgem certezas que nos confirmam como se faz este caminho do luto: não se esquece a pessoa amada, não se ultrapassa a perda, não é uma batalha para ser forte e resistir, mas sim, um redesenhar do quem se é a partir desta perda, um reaprender a viver com um novo vínculo que nos une a quem morre.

Aprende-se a amar na ausência [física]”, disse-nos uma participante há alguns anos atrás.

E porquê o grupo?

O grupo oferece oportunidade de vivenciar a (rara) experiência de poder expressar o que se sente, sem censura, sem conselhos, sem frases feitas que, mesmo que cheias de boa intenção, não produzem qualquer consolo nem alívio.

Uma pessoa em luto precisa de falar de si, da pessoa que morreu, da sua experiência de perda, do que sente e do que está a viver. De alguma forma é como se se precisasse de confirmar a realidade da ferida, o facto de a pessoa que tanto ama ter vivido e partilhado uma história consigo, tão cheia de significados e memórias.

Precisa de alguém (aqui, um grupo), que a escute, que acolha as suas emoções, que a faça sentir também normal (“identifico-me muito com o que dizes…”; “comigo isso também aconteceu…”), que partilhe os seus próprios kits de sobrevivência (“naquela altura o que me salvou foi…”, “eu também tenho feito isso e tem-me ajudado muito…”) e que seja também uma oportunidade de novas experiências de interação com outros seres humanos com este tema comum, o de estarem feridos, doridos, serem sobreviventes da sua perda.

O grupo é então como uma terra fértil onde cada um deposita as suas sementes e pacientemente partilha a água e o sol que farão germinar uma nova esperança: A esperança de continuar a viver, com um amor grande no peito, mas com uma saudade muito menos dolorosa e muito mais serena…

Por isso, a cada ano que entra, recordamos as palavras de Eva Luna, de Isabel Allende, e o seu consolo:

“- A morte não existe, filha. A gente só morre quando nos esquecem. – explicou-me a minha mãe pouco antes de partir.

– Se podes, recorda-me, estarei sempre contigo.

– Recordar-me-ei de ti – prometi.”