22/09/2021

Folhas de Notícias LInQUE

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Vulnerabilidade (Dezembro de 2022)
O luto (Setembro de 2022)
A força do Perdão (Junho de 2022)
(Re)Pensar a esperança (Março de 2022)
Falar de Gratidão em tempos de correria (Dezembro de 2021)
Comunidades Compassivas (Setembro de 2021)
Dar voz a quem cuida (Junho de 2021)
Damos-lhe as boas-vindas (Março de 2021)


Vulnerabilidade

Uma das características que certamente mais nos impressionam nas pessoas que realmente admiramos é a sua capacidade de inteireza, de estar inteiras naquilo que fazem e vivem. De ser autênticas e sem duplicidades… sem se preocuparem em cultivar imagens artificiais de si mesmas. Junto delas estamos bem, tranquilos e abençoados.
Mas na educação da maior parte de nós, provavelmente fomos ensinados a valorizar muito outro tipo de pessoas: as que se posicionam como fortes em permanência, valorizando assim uma certa imagem do que é ser forte. Por essa razão, demonstrar vulnerabilidade é tido como sinónimo de fraqueza.

Ora, se pensarmos em verdade, sabemos que todos nós somos vulneráveis, frágeis, débeis e temos necessidade de ser curados, amados, acarinhados, vistos, entendidos, consolados, protegidos… e, contudo, a nossa vulnerabilidade é uma das coisas mais difíceis de reconhecer na vida, o que provoca que nos dissociemos internamente.
Por vezes procuramos encobrir ou mascarar a nossa vulnerabilidade, para que não se veja. Mas as dissimulações são sempre hipócritas, porque há uma hipocrisia em relação a mim e ao meu próximo: fugindo ao encontro e confronto comigo mesmo, permito-me pensar que sou diferente do que realmente sou, acreditando que não preciso de cura, de apoio, de ajuda, de amor; e este é, precisamente, o caminho que leva à vaidade e à soberba, que me convence de que posso tudo sem a ajuda de ninguém – fazendo de mim o centro do Universo. Como se fossemos pessoas perfeitas e – curiosamente – incapazes de sentir dor e sofrimento.

Mas somos seres humanos em permanente construção, e é preciso coragem para ser quem eu realmente sou e não quem os outros (ou, por vezes, eu mesmo) querem ou esperam ou exigem que eu seja. Neste ponto, a coragem de ser imperfeito é o primeiro passo para abrir as portas da vulnerabilidade e ser capaz de aceitar a essência básica do ser humano. Porque ao não assumir a fragilidade que existe dentro de si mesmo, cria-se uma falsa armadura que será derrubada mais cedo ou mais tarde, confrontando-me com a realidade da condição humana.

O melhor caminho para nos impedirmos de abrir muitas portas e viver muitas belas experiências ao longo da vida é ceder ao medo de se expor e de se colocar em posição vulnerável, para fugir á possibilidade de ser feridos. Ser vulnerável permite viver mais e melhor, vivendo mais intensamente diferentes experiências. E a coragem e a vulnerabilidade, na verdade, andam juntas. Não existe coragem sem vulnerabilidade, sem se arriscar, sem o arrepio da possível falha ou desconforto. Para poder amar é preciso acolher o risco de ser rejeitado e ferido.
Poder considerar que há alguém que pode desempenhar algum papel melhor que eu não é fragilidade, mas antes uma prova de inteligência, uma vez que o resultado alcançado será muito melhor para todos. E esta pedagogia da Vida apenas pode alcançar-me quando baixo as minhas defesas, quando deixo de me sentir atacado no meu poder e na minha força. Apenas quando as barreiras que levanto – seja pelo orgulho ou pelo medo – são postas de lado me torno mais recetivo à ajuda que os outros e a Vida me trazem./p>

Uma destas pessoas a que todos somos sensíveis, qualquer que seja a nossa crença religiosa ou a sua ausência, é certamente a de Jesus Cristo. Nele, a vulnerabilidade será sempre e em tudo a porta de entrada num coração que ama ao longo de toda a sua vida: quando chora sobre a bela cidade de Jerusalém porque vê que a maldade humana a destruirá, quando para o seu caminho para chorar com quem chora e sofrer com quem sofre, quando se senta à mesa e faz festa no meio de marginais e condenados… e quando acolhe a inocência de uma criança e a aponta como exemplo de força vencedora.
Neste tempo que antecede a festa do Natal, podemos inclinar-nos tranquilos junto deste frágil menino: aparentemente fraca escolha para um Deus que dizem omnipotente… Onde estão as demonstrações de força e a invencibilidade dos fortes e poderosos? Ali, numa manjedoura de um estábulo em Belém…

Podemos, por isso, ajoelhar diante das nossas próprias fraquezas e debilidades e agradecer, pois são elas o terreno sagrado que fertiliza a semente das nossas forças e potências. Sem a nossa vulnerabilidade toda a nossa força é vã, bruta e estéril, porque desligada do amor, da compaixão, da empatia. Com a nossa vulnerabilidade a nossa força é límpida, criadora, transmutadora, benfazeja. Sejamos, por isso, verdadeiramente fortes, vulneráveis, autênticos.

Horácio Lopes
Paris, Dezembro 2022